julho 04, 2004

Duas décadas de história

Esta noite, pelas 22.00, haverá Gente Feliz com Lágrimas no Palco Grande da Escola D. António da Costa, em Almada - quer a tribo imensa do futebol vibre em paroxismos de vitória final, quer se afunde na depressão, em caso de derrota. Com este espectáculo, adaptado do romance homónimo de João de Melo por João Brites, também o encenador e cenógrafo (com uma das suas máquinas cénicas, narrativamente eficaz além de admirável), O Bando inaugura a edição 2004 do festival que, por sua vez, festeja 20 anos, com 42 espectáculos - incluindo ópera, dança e música, nomeadamente pela Orquestra Feminina Andaluza de Tetuã -, produções portuguesas (13) e estrangeiras (11), além de actividades paralelas, em quatro espaços de Almada e cinco de Lisboa, até dia 18.

Quando, numa semana de Julho de 1984, a Companhia de Almada (ex-Grupo de Campolide, rebaptizado em 1978, ao instalar-se na Academia Almadense) fez uma Festa de Teatro ao ar livre, numa estrutura improvisada no Beco dos Tanoeiros, com uma mão-cheia de espectáculos de amadores (e as habitações anexas por «camarins»), encenações dos fundadores da companhia (o ainda director Joaquim Benite e José Martins) e de vários outros, os organizadores (de então e ainda hoje, também Teresa Gafeira, Maria Laita, Alfredo Sobreira, Miguel Martins e Vítor Gonçalves, actual subdirector) não imaginavam ser esse o embrião dum festival internacional, gradualmente equiparado aos congéneres europeus mais prestigiados. O êxito da experiência, porém, fê-la sedimentar em cada vez maior profissionalização e ir de palco em palco: do Pátio do Prior do Crato às imediações do edifício SMAS, da Casa da Cerca à Escola D. António da Costa, a partir de 1992, juntando-se-lhe os entretanto construídos Teatro Municipal e Fórum Romeu Correia. A par da participação internacional, iniciada por grupos universitários, sem cachet. E de um financiamento alargado da autarquia a patrocinadores e ao Estado, com aumento substancial atribuído pelo ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho, decisivo no salto qualitativo da segunda década - o apoio estatal mantém-se, no entanto, inalterável desde 1996.

O caudal de público aumenta cerca de 30 por cento em cada ano, e o de Lisboa, nas últimas edições, nem tem precisado de deslocar-se para alguns dos espectáculos, pois o festival veio tendo extensões ao CCB e ao Trindade, agora prolongáveis aos teatros São Luiz, Taborda e do Bairro Alto/Cornucópia.

Nesta trajectória, recordem-se alguns nomes de referência. De companhias: Piccolo Teatro de Milão, Schaubühne de Berlim ou Teatro Lliure de Barcelona (volta este ano). De encenadores: Peter Brook, Giorgio Strehler (homenagem in memoriam), Lluis Pasqual, Luc Bondy, Albert Boadella (presente de novo), Armand Gatti, Luca Ronconi, Bernard Sobel, Robert Lepage, Benno Besson ou Thomas Ostermeier. De intérpretes: Laura Betti, Ferrucio Soleri, Alla Demidova, Nuria Espert (também regressa), Corin Redgrave, François Chattot, Edward Fox, Steven Berkoff ou Bruno Ganz.

Este ano, o espectáculo de abertura é uma das participações nacionais, ombreando com as oriundas de Espanha, França, Itália, República Checa, Marrocos, Argenti-

na e Brasil. Das portuguesas, destacam-se a companhia anfitriã (O Jogador, segundo Dostoievsky, adaptado e encenado por Vladislav Pazi) e duas estreias (Medo/ Triângulo pelo Útero, direcção de Miguel Moreira, e Dois Irmãos pelos Artistas Unidos com encenação de Silva Melo). Tangos e Tragédias, de Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, pela Caravana Produções, é o tradicional espectáculo de honra.
Elisabete França

Festival de Almada

Publicado por vmar em julho 4, 2004 04:58 PM
Comentários

Tanta actividade...é bom sinal!
aqui pelo inteior...nada de novo! Abraço, Wb

Afixado por: whiteball em julho 4, 2004 11:31 PM

Um Festival que mexe com a Cultura. Já li o Gente Feliz...Adorava ver a peça...

Afixado por: valeria em julho 5, 2004 03:27 AM

Para a ANA
-Desde o escarlate dos Infernos, desejo-lhe, caríssima Ana, umas "vacances" muito "hollidays", cheias de frescura, boa disposição, alguma "pimenta" pelo meio,e sobretudo muita alegria! Claro que estes votos, são extensivos ao seu consorte.
Também eu estou, quase, de malas aviadas para o Libano. São uma espécie de "vacances", com um trabalhinho pelo meio. Vou "arrastar-me", pelas ruinas de Baalbeck, durante uma semana, e vou confabular, por certo, com os espiritos "stendhalianos" que por lá existam.De Vermelho e Negro. Sempre.
O que me vai fazer falta, é o meu Bloody Mary bem fresquinho, que por lá, o deserto, é tão quentinho, quanto os meus dominios, e parece que por lá, em muito sítio, o alcool é proibido. Vou ver se "descarrilho" das normas, e tentar refrescar-me um pouquito. O deserto,por vezes, faz-me sentir saudades do meu "Inferninho" tão doce!
Saudações!
Madame Satã

Afixado por: Madame Satã em julho 5, 2004 04:03 PM

Ó Madame, obrigada pelos votos de hollidays.
Desejo-lhe igualmente uma boa estadia no Libano. Já agora, para quem por aqui passar, permitam-me que lhes apresente Madame Satã: é uma senhora de alma ardente (mas não queima, podem chegar perto), canta fado - o próprio senhor dos infernos vira anjinho quando a escuta - e é muito bem relacionada. Aqui há dias, por intermédio de Madame Satã, encontrei-me pessoalmente com o Dante (o Dante Alighieri, o da Divina Comédia, esse mesmo). Madame também é conhecida como Valéria e podem encontrá-la no Motel Prusidente, que fica na seguinte rua: http://prusidente.weblog.com.pt/
Retribuo as Saudações

Afixado por: Ana em julho 5, 2004 09:37 PM